Artigo: Renovação e resistência

*Por Jefferson Lima

No momento mais difícil da sua historia, o PT tem diante de si a necessidade de empreender uma revisão de seu papel enquanto partido de esquerda, construir e organizar o “novo” papel de ser uma oposição programática, fazer as autocriticas necessárias, renovar a direção, aprofundar sua relação com as juventudes e os movimentos sociais e voltar a viver e a dialogar com o cotidiano das pessoas.

Nas vésperas do Congresso Nacional do PT, devemos intensificar a resistência a esse golpe continuado, que tirou a presidenta eleita, criminalizou o PT, quer colocar o Lula na cadeia e acabar com os direitos do povo brasileiro. Para tudo isso acontecer, é necessário diminuir (deixar de lado) as disputas (menores) internas e construir o máximo possível de unidade na luta.

Será nesse congresso o momento de discutir, à luz da historia, os próximos passos da esquerda no Brasil, a organização de uma Frente de Esquerda e como traçar o caminho para um novo projeto de país. Qual a agenda que o PT consegue apresentar para esse novo Brasil? Tudo isso vai acontecer através de debate com as bases, formadas pelos militantes do partido, com os movimentos sociais, com as novas juventudes e trabalhadores, empreendedores, empresários, homens, mulheres e toda a diversidade da sociedade brasileira.

Um elemento fundamental nesse novo cenário é a pactuação de uma grande mudança interna no PT, com renovação, ousadia, oxigenação e atualização geracional. Um ponto necessário é o partido reaprender a conviver com seu novo papel enquanto força política, em total sintonia com o povo brasileiro, fortalecendo os vínculos com a mobilização popular.

O maior partido do Brasil e um dos maiores do mundo vive um momento muito complicado, tanto pelas disputas internas, algumas oportunistas e bem negativas, como pelos ataques que sofre da grande imprensa, de parte do Judiciário e do MP e de “castas políticas” que farão o possível para impedir que Lula e o PT volte a ser a maior expressão política e que vai governar o Brasil.

Esse 6° Congresso Nacional do PT e os próximos caminhos não podem ser o daqueles que leem a história de forma reta e cega, como se os petistas e o PT fossem sempre os detentores da verdade universal e simplesmente julgam os outros, ignorando os novos anseios sociais, a nova sociedade e os nossos diversos problemas, contradições e lutas sociais presentes na conjuntura atual. O momento pede muito dialogo, ouvindo o povo, os desejos e sonhos, principalmente da população mais pobre e trabalhadora do Brasil.

Um dos grandes desafios, e o congresso ajudará muito, é manter a mobilização e dialogo permanente com o povo, e junto com os movimentos sociais, através de espaços como a Frente Brasil Popular, respeitando e reforçando o papel dos partidos na luta social e na defesa da Democracia.

O projeto de poder do PT é constante e necessário para mais transformações, entre as quais as institucionais. O PT continua sendo a principal alternativa partidária de organização da esquerda e de resistência e enfrentamento aos retrocessos. Para tal, é fundamental que o PT nesse novo momento do Brasil acumule e construa um programa atualizado que represente a esquerda e intensifique o dialogo e sintonia com a base social originária e com a nova sociedade, através de novos pactos de confiança e referência com os novos sujeitos políticos e sociais do nosso campo. A elite conservadora faz de tudo para destruir o processo de mudanças do governo Lula e Dilma, e o que demanda pra nós é o máximo de união de forças.

O PT não pode sair desse 6° Congresso Nacional com o risco de um isolamento social e politico sem precedentes. Há setores do PT que apostam nessa estratégia. Estão em completo desajuste com tudo o que significaram os últimos 15 anos de transformação social, com isso aprofundando o isolamento da esquerda e dos movimentos sociais. É preciso mobilizar a militância e construir uma grande frente com vistas à retomada do projeto transformador que mudou o Brasil nos últimos anos. Para tal, será preciso realizar um amplo debate com a sociedade.

Na política, o isolamento é o caminho para a derrota, e a estrada a ser percorrida para eleição do Lula em 2018 não será fácil, por isso se fará fundamental ampliar nossa capacidade de dialogo para construirmos uma grande frente progressista. É certo que iremos continuar a defesa do legado da (centro) esquerda que tivemos até aqui, de conquistas institucionais, ao mesmo tempo em que devemos construir cenas mais fortes com/para a esquerda – menos institucional e mais voltada às ruas, às redes e aos movimentos horizontais que crescem no Brasil profundo. Está diante de nós o desafio de organizar uma agenda para o Brasil, que apresente propostas e soluções para além da denúncia do golpe de 2016.

Este é o momento…

A partir do 6° Congresso, o PT deve estabelecer uma agenda que dialogue com a atual realidade brasileira e que possa mexer com os sonhos do povo brasileiro. A nova agenda deve necessariamente enfrentar o tema da desigualdade social por meio de uma nova elaboração sobre a questão econômica, mas não pode se furtar de colocar a pauta dos Direitos Sociais. Devemos apresentar soluções para os principais dilemas do país, tais como uma política econômica, uma política industrial, uma política de sustentabilidade socioambiental, segurança pública, contra o extermínio da Juventude, entre outras, que tenham capacidade de promover a retomada do crescimento no Brasil.

Por sinal, outro desafio do PT após 36 anos é necessidade de um vigoroso processo de renovação do nosso partido e evolução nas suas relações com a juventude, atingindo sua diversidade e pluralidade. Hoje o PT, no seu atual formato, diminuiu a capacidade de diálogo com a juventude porque não apresenta mudanças e novas formas de diálogo, burocratizou os meios de acesso e de construção partidária.

As manifestações de junho de 2013 em todo o país mostraram bem a grande quantidade de jovens, boa parte deles querendo fazer parte da política, apesar de não se sentir representada nos partidos políticos atuais. É fundamental que nesse 6° Congresso Nacional do PT possamos sair com novas propostas políticas para a organização dos jovens petistas, de atração e dialogo com os novos jovens, sintonizada com as narrativas do nosso tempo político, ouvindo, dialogando e convivendo de forma horizontal e com mais espaços desburocratizados para os movimentos, às mulheres, LGBTTs, negros, índios e todos os povos e etnias.

Hoje, temos graves problemas organizativos, e por isso não estamos conseguindo envolver massivamente nas nossas instâncias e espaços de discussão jovens petistas e simpatizantes que militam nos diversos movimentos sociais. Atualmente temos militantes da JPT representando a pluralidade da juventude em suas lutas e formas de atuação. Porém, ainda temos limitações de capilaridade da própria organização de Juventude do PT nos espaços de atuação cotidiana do jovem brasileiro. Em geral, prevalece o distanciamento destes jovens do PT e consequentemente dos jovens petistas em relação à JPT nos Estados e municípios.

Para sermos capazes de avançar, precisamos reconhecer nossos limites e definir sobre como e o que se pretende ao organizar a Juventude no PT enquanto instância. O nosso atual modelo é extremamente ligado à burocracia interna do partido, sem autonomia organizativa e financeira, deixando os milhares de jovens filiados aquém dos desafios do cotidiano e distante ainda mais dos milhões de jovens brasileiros. Se o PT não reconhecer esta deficiência e deixar passar este momento histórico e, principalmente, se os jovens petistas não assumirem a construção por suas próprias mãos, assistiremos ao aprofundamento deste distanciamento e teremos muitas dificuldades em construir o processo de transição geracional no PT e o papel que o PT deseja cumprir nos próximos períodos.

A nova geração do PT precisa estar à altura da tarefa histórica de dar continuidade e aprofundar a luta igualdade e justiça social. Isso passa, necessariamente, pelas mudanças no PT e na JPT, através da autonomia financeira e organizativa da juventude, horizontalidade na construção politica, construção de grandes espaços de massa, como os festivais e acampamentos que envolva todo o partido através do dialogo com a arte, cultura, educação, tecnologia, empreendedorismo juvenil e demais pautas e anseios dos milhões de corações e mentes da juventude brasileira. Para tudo isso começar a fluir, será necessário o envolvimento de todo o partido nas suas esferas, em cada cidade, através de atividades com essa nova geração de filiados e simpatizantes do PT para debater as questões que estão na pauta social/politica e construir as ações organizadas.

O PT convive hoje com muitos problemas nos Estados e municípios em relação à defesa e à construção das suas pautas, por isso precisamos ressignificar o cotidiano dos diretórios estaduais, municipais e zonais, para que possam avançar em direção aos anseios da sociedade, em amplo diálogo com o cidadão dos bairros, das comunidades e das favelas, de norte a sul do país. Que sejam espaços atrativos e cumpram o papel social e solidário que o PT deixou de cumprir nos últimos anos. O PT não pode ser visto pela sociedade meramente como um partido politico. Deve ser visto e reconhecido como um instrumento de transformação e melhoria do povo brasileiro, em especial da juventude.

Chegou a hora de abrir o PT para as Juventudes e da construção de uma nova agenda social e política para o Brasil.

Jefferson Lima é historiador e assessor da liderança do PT no Senado Federal, ex- secretário nacional de Juventude do PT e do governo Dilma, membro da Direção Nacional do PT e da Direção Estadual do PT/SE

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