Para uma conjuntura de exceção, um congresso extraordinário

*Por Beatriz Cerqueira

Ela pediu a palavra antes mesmo que os convidados encerrassem suas falas. Nervosa, contou sobre a fome no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Que não pescava peixe nem para comer, o que dirá para vender! E num forte lamento, ouvido por mais de três mil pessoas, ela pediu que “olhassem para o Vale!”.

No dia 31 de março, em Belo Horizonte, encontraram-se homens e mulheres que dificilmente partilhariam suas vidas e dificuldades, em outra conjuntura. O velho hábito de separar movimento social de movimento sindical nos faz esquecer de que a turma classificada de “movimento social” também é classe trabalhadora. Em geral, são do campo, pescadores, ribeirinhos. Outros vivem na informalidade, mas continuam sendo classe trabalhadora e são invisibilizados pela própria estrutura sindical.

A conjuntura de exceção que vivemos no Brasil exige novas práticas, exige aglutinar forças para além daqueles que já estamos acostumados a reunir. Por isso, a realização de um congresso extraordinário, num esforço de responder mais coletivamente aos desafios e ataques imediatos que enfrentamos. Por isso foi realizado, nos dias 31 de março e 01 de abril, o Congresso Extraordinário da CUT Minas, com o tema “Resistência e lutas”. Afinal, é preciso reconhecer que, nos últimos anos, fizemos muita luta de categoria. Lutas que tiveram balanços positivos e mudaram a vida econômica e material de muita gente. Mas faltou a luta de classes.

Agora, o projeto de conciliação – responsável pela década de ótimas negociações salariais, de retirada de milhares da pobreza e da geração de milhares de empregos – chegou ao fim. Estamos diante de uma luta que poderá mudar nosso país não apenas para nós, mas também para as próximas gerações.

Estado menor, privilégios maiores

O golpe de Estado feito pelo Parlamento brasileiro tem como alvos as vidas desses milhares que se reuniram no Congresso Extraordinário da CUT Minas. Tentam impor um novo Estado Brasileiro, menor, que atenda aos interesses do sistema financeiro, retire direitos e criminalize as lutas sociais. Esta é a disputa. E quem ficar sozinho fazendo sua luta de categoria já perdeu, por antecipação!

O congresso não aconteceu em hotel e parte dos congressistas dormiu ali mesmo: no espaço democrático da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. A escolha do local não foi aleatória. Foi pela disputa simbólica do espaço político. E a direita acusou a insatisfação. Logo após o congresso, um deputado apresentou requerimento para tomar satisfações sobre a realização da atividade ali. Acertamos na escolha.

O congresso começou com mística, algo tão fora da nossa vida sindical, mas essencial para não perdermos a esperança e a afetividade. Não teve creche para os filhos e filhas das trabalhadoras que participaram. O que teve foi a ciranda, fazendo com que as crianças também vivenciassem os debates, cuidadas por militantes. Foram as crianças que fizeram a apresentação final do congresso, num momento que emocionou pais, mães e militantes. Todas as mesas foram coordenadas por mulheres, em mais uma simbologia pelo empoderamento das mulheres no mundo sindical.

A comida? Feita pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, sem agrotóxicos. E servida na praça! Entre trabalhadores urbanos e rurais, servidores públicos e do setor privado, planejamos a greve geral em todo o estado, além de outras ações de mobilização.

Também fomos para as ruas. No dia 31, para gritar contra as reformas trabalhista e da previdência, juntamente com outros 100 mil mineiros e mineiras. No dia 1º de abril, para denunciar a ditadura militar de 1964 e rememorar cada mineiro e cada mineira assassinados ou desaparecidos. Chorar nossos mortos!

O congresso terminou numa marcha coordenada pela juventude até a antiga sede do Departamento de Operações Especiais (DOPs).

Fizemos o que Guimarães Rosa nos ensinou um dia: “o que a vida quer da gente é coragem”! Coragem para fazer a luta que precisa ser feita, sem vacilação!

*Beatriz Cerqueira é presidenta da CUT/MG e coordenadora-geral do Sind-UTE/MG.

Publicado originalmente no portal Brasil de Fato

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